Doutrina: Os desafios de Obama


Texto confeccionado por
(1) Marcos Cintra

Atuações e qualificações
(1) Doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.



Antes mesmo de tomar posse, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, se mostra atuante em várias frentes visando enfrentar a maior crise econômica da história daquele país. Segundo ele, "não vai ser rápido e não vai ser fácil sairmos do buraco em que estamos, por isso, não há um minuto a perder".

O cenário desafiador que Obama tem pela frente é impressionante. O ponto de partida de suas ações só poderia ser a turbulência gerada no mercado imobiliário daquele país, onde os prejuízos já somam, por enquanto, quase US$ 600 bilhões.

O abalo no mercado financeiro norte-americano gerou uma crise de confiança que está sendo sentida de modo intenso na economia real. Em outubro de 2008 o desemprego atingiu 10,1 milhões de pessoas nos Estados Unidos, o nível mais elevado dos últimos dezesseis anos.

No âmbito empresarial a crise acentuou as dificuldades em setores como o automobilístico, que é considerado por Obama como "a coluna dorsal da manufatura nos Estados Unidos". Montadoras como a GM, Ford e Chrysler reivindicam uma ajuda emergencial de US$ 34 bilhões para sobreviverem ao declínio econômico.

Durante os últimos anos os bancos e financeiras dos Estados Unidos aumentaram demasiadamente o volume de crédito imobiliário para pessoas com pouca ou nenhuma condição de arcar com essas obrigações. Hoje, com a explosão da inadimplência, estão sendo leiloados 770 mil imóveis. Moradores são despejados e suas casas têm as portas lacradas. Obama terá que encarar essa situação dramática que atinge mutuários e bancos.

Não são apenas os aspectos relacionados à crise imobiliária e à recessão iminente que esperam por ações do governo de Obama. Os Estados Unidos têm atualmente uma dívida pública de quase US$ 11 trilhões e o déficit do governo federal deve chegar a US$ 410 bilhões neste ano e ultrapassar US$ 490 bilhões em 2009. Quanto ao comércio exterior, o déficit em 2007 foi superior a US$ 700 bilhões e em 2008 as projeções apontam para um saldo negativo em torno de US$ 713 bilhões.

Além de ter que encaminhar soluções relacionadas à crise econômica e aos rombos externo e fiscal, o governo que toma posse em janeiro nos Estados Unidos terá ainda outros desafios pela frente. Há a expectativa do barril do petróleo sair, em médio prazo, do atual patamar de US$ 60 para US$ 100, o que faria as despesas com a importação do produto saltar de US$ 274 bilhões por ano para cerca de US$ 500 bilhões.

Para tornar o quadro ainda mais dramático cabe lembrar a questão da guerra no Iraque, cujos orçamentos iniciais eram de cerca de US$ 50 bilhões, mas um estudo revela que os gastos totais podem alcançar US$ 2 trilhões.

A maior economia do planeta registra problemas financeiros que impressionam por conta se seus valores e alguns deles estão resumidos neste texto. O presidente eleito sabe que terá um conjunto de temas extremamente espinhosos. Muitas de suas ações vão desagradar não apenas aos norte-americanos, mas também outros povos serão afetados, como nós brasileiros que podemos sofrer com medidas protecionistas.

Devemos torcer pelo sucesso de Obama, mas tempos difíceis virão por aí.