Doutrina: John Kenneth Galbaith - A Economia e o Objetivo Público 1ª Parte - A floresta
Texto confeccionado por
(1) Vicente Lentini Plantullo
Atuações e qualificações
(1) Pós-doutor, doutor, mestre, especialista e bacharel em administração de empresas, respectivamente pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo e pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas. Possuidor de Master Business Administration pela Stockholm School of Economics. Advogado. Professor Universitário.
As utilidades de um Sistema Econômico da economia
O objetivo de um sistemaeconômico é proporcionar os bens e prestar os serviços que as pessoas desejam. O melhor sistemaeconômico é o que proporciona o máximo do que as pessoas desejam.
Algumas empresas, devido ao seu enorme porte, têm um grande poder e são comandadas em função de suas próprias finalidades (finalidades dos donos ou membros das empresas).
A GM existe para servir ao público, mas se serve tão bem quanto ao público, ou serve-se apenas a si.
Enquanto se imagina que o sistema econômico está fundamentalmente a serviço do indivíduo pode supor-se que a função da economia consiste em explicar o processo pelo qual o indivíduo é servido.
A ciência que estuda o comportamento humano como relação entre objetivos e meios escassos com empregos alternativos (Lionel Robbins).
Como decidimos usar recursos escassos de produção com empregos alternativos, pala lograr determinados objetivos (Paul Samuelson).
As empresas, sabiamente, exercem o poder, negando a sua existência. Se os bens que produz são letais ou prejudicam o ambiente, a culpa não é da firma; pois isto reflete a escolha pública.
Na sociedade moderna, como sendo crescente, a persuasão é o instrumento básico de poder usado pelas grandes empresas.
A função instrumental da economia serve às metas do que detêm o poder do sistema, esquecendo-se da compreensão e do aprimoramento do sistema econômico.
A mais comum e aceita na comunidade dos economistas é o interesse econômico predominante.
No início a economia interpretava corretamente a realidade, pois as empresas eram pequenas e estavam subordinadas às instruções do mercado.
A teoria foi corrigida para dar conta do monopólio e do oligopólio, mas a firma competitiva era ainda a peça central, e. e., o mercado e o consumidor continuaram soberanos.
O papel instrumental da economia está mudando o que era antigamente economia é agora chamado de economia neoclássica, termo com fortes traços de obsolescência.
Causas da mudança:
-A persuasão será menos bem sucedida quando se duvida dos benefícios gerados pelas grandes empresas (competição de armamentos, ou irrespirável, etc.).
-Maiores universidades de importância e força independentes.
A FORD, a SHELL e a Procter & Gamble possuem muito poder. O agricultor não o possui e o construtor de residências muito pouco. Estas diferenças dizem muito pobre como funciona o sistema econômico (e em benefício de quem).
O modelo neoclássico
A finalidade do estudo da economia não é adquirir um conjunto de respostas prontas para questões econômicas, mas aprender a evitar o que os economistas Nos enganem (Joan Robinson).
A interpretação aceita do sistema econômico não socialista:
-chamada de:
i)modelo neoclássico pelos economistas
ii)economia (pelos outros)
Origina-se com “a riqueza das nações (Adam Smith) - 176. Desenvolvimentos de Ricardo, Matheus, James e John Stuart Hill - Sistema Clássico.
Com Keynes (“A teoria geral do emprego, juros e dinheiro”) já não se assume que o sistema econômico seja auto-repelador.
A essência do modelo neo-clássico reside de fato de que os indivíduos dividem suas rendas de atividades produtivas, na compra de vários bens e serviços que encontram nos mercados.
O consumidor é movido pelos seus desejos (maximiza a satisfação) enquanto que o produto procura maximizar o lucro.
Toda esta teoria pressupõe a liberdade do consumidor de gastar mais com o que desejar, sendo esta sociedade democrática subordinada ao poder final do indivíduo. Logicamente o que o poder não está igualmente distribuído entre os consumidores, dependendo de sua renda disponível para o consumo.
No modelo clássico não só o consumidor está no controle da situação, mas embutida no sistema também está a poderosa força da competição, que limita e uniformiza a renda.
Por volta de 1930 a idéia da competição (muitas empresas pequenas no mercado) já era insustentável em muitos setores da economia. Existiam poucos produtores com um grande poder. Surge o oligopólis.
O que se acrescentava era o poder de fixar o preço para o produto ou o serviço. O preço fixado por uma empresa afeta o de outra empresa; a firma pensa no preço aceitável para todas (o interesse comum da indústria).
Os proveitos do oligopólio são maiores do que deveriam ser. O sistema já não tem a mesma tendência à igualdade de renda que tinha antes. Entretanto, a subordinação final à vontade do indivíduo continua igual.
O modelo neoclássico II: O Estado
O sistema econômico funciona estimulado pelo consumidor. Se a resposta do produto for inadequada pode-se exigir do governo que corrija as instruções ou complete a reposta de modo que ela se harmonize mais com o interesse público. O papel do Estado é complementar e regulador (papel é pequeno e subsidiário).
O Estado neoclássico é superior ao interesse econômico e à influência da firma comercial.
A idéia do Estado neoclássico evoluiu para a de um Estado supervisor global da economia, refletindo o interesse público geral.
A firma comercial procura influir no mercado:
-pode procurar tarifas que excluam a oferta
-quer que seus preços sejam sustentados por compra do governo
-tenta impedir inovações, via governo
-procura a concordância do governo para derrocar competidores e controlar os preços.
Obs.: São os clássicos expedientes para conseguir o apoio público ao objetivo particular.
Até 11930 (grande crise) o sistema econômico era considerado auto-regulador. Só se admitiam disfunções temporárias.
A teoria de que a produção criava a procura suficiente implicava como dogma econômico (Lei dos Mercados de Say).
Se os homens ficassem desempregados, os salários cairiam (devido a competição) e seria vantajoso contratar mais homens. Com salários mais baixos, a procura e os preços deveriam cair; mas os salários (influenciados pelo desemprego) cairiam mais ainda. A queda dos salários reais seria o fator decisivo para a expansão do emprego.
Keynes pulverizou a lei de Say e com ela a ilusão de uma economia auto-corretora. Pós-Keyne, admitiu-se que poderia haver uma grande queda no poder aquisitivo na economia e nem os salários nem os juros reagiriam para corrigi-la. a única resposta par isto seria o Estado.
O Estado podia gastar méis o menos do que os rendimentos dos impostos apoiando e controlando o sistema econômico pela política fiscal.
O Estado também pode a oferta de dinheiro e com ela, as taxas de juros.
As poupanças depositadas em bancos ou outras instituições financeiras podem ser usadas para novos empréstimos. Esta quantidade de dinheiro pode Sr aumentada com os empréstimos que os bancos fazer no Banco Central (podem ser estimulados por uma taxa de empréstimo (redesconto) favorável).
Conclui-se que uma política monetária ativa faz da taxa de juros um preço planejados ou fixo (fixado pelo Banco Central).
O modeloneoclássico (agora nokeynesiano) acredita que numa combinação das política fiscal e monetária produzira preços estáveis num nível próximo do pleno emprego.
A fé neoclássica e a fé neokeynesiana são uma só e ambas dependem da mesma concepção do poder do mercado.
A necessidade de prover à supervisão global da economia ampliou o papel do Estado do sistema econômico. A ação keynesiana original da década de 30 foi pronta e justamente encarada como resposta humana ao problema do desemprego em massa.
Plano original:
-Aumento dos gastos governamentais
-Pagamentos da Previdência Social; aumentam a procura e quando o desemprego tivesse diminuído, reduzir-se-iam os gastos do Estado.
Na realidade, após o período de ajustes os gastos governamentais se fixaram num nível elevado (apoiado pelo imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas).
Os grandes gastos governamentais formavam o peso do Estado, na economia, muito grande; e muitos gastos favoreciam empresas particulares (ex. produtos militares passariam a dispor de um quinhão importante no orçamento federal).
As firmas no modelo neoclássico, grandes ou pequenas, respondem às instituições do mercado e do consumidor.
A única diferença é que, em mercado onde as firmas são poderosas, o investimento, o uso de mão-de-obra e o nível de desenvolvimento serão menores do que seria socialmente desejável.
Shumpeter sustenta que o oligopólio e o monopólio são tecnicamente mais progressistas do que a empresa competitiva podem gastar méis com o desenvolvimento técnico devido aos seus lucros monopolísticos).
O modelo neoclássico não descreve a realidade e só foi mantido devido à característica instrumental da economia, desviando a atenção do gasto e da ação inconvenientes.
Uma conseqüência de rejeição do modelo neoclássico é o renovado interesse por Marx (que era a grande alternativa para o pensamento econômico clássico). Segundo Marx os capitalistas não estão subordinados ao Estado, o Estado é a sua comissão executiva.
O consumo e o conceito da família
Para o sistema neoclássico o consumo é uma coisa sem defeitos e deve ser maximizado por todos os meios honestos.
A posse e o consumo de certos bens tornam-se opressivos, a menos que se possam delegar as tarefas correlatas. Vide roupas, veículos, gramado, etc.
Se houver pessoas que possam assumir a responsabilidade da administração, recrutar e dirigir os criados necessários, o consumo não tem limites.
A busca de substitutos ao serviço pessoa (ameaçado por oportunidades mais atraentes do trabalho) conduziu as mulheres e a família.
A virtude social conveniente é essencial para induzir as pessoas a prestarem serviços desagradáveis. Vide rapazes sorteados para fazer serviço militar, a soldos muito inferiores aos salários do mercado, aliviando o ônus dos tributos dos contribuintes relativamente abastados (quem relutasse em fazê-lo era taxado de apátrida e imprestável).
O derradeiro sucesso da virtude social conveniente consistiu em converteras mulheres aos seus serviços pessoais.
A industrialização eliminou a necessidade das mulheres nos empregos caseiros (fiação, etc.), na agricultura; mas os padrões crescentes de consumo criaram a necessidade de administrar ou dirigir o consumo (compra inteligente de mercadorias, preparo, uso, manutenção, etc.). Mulher vistosa = boa dona de cada = boa mãe de família.
Paradoxalmente o papel servil da mulher torna-se tão mais árduo, quanto maior for a renda da família (isso dá a fração que dispõe de cuidados).
A convenção proíbe papéis externos não associados à exibição de virtudes domesticas que estejam em conflito com a criteriosa administração da casa.
A conversão das mulheres numa classe xxx foi um feito econômico de primordial importância. O valor dos serviços das donas de casa foi calculado em aproximadamente 25% do PNB.
O modelo neoclássico tem um disfarce muito mais sofisticado para o papel das mulheres e da família.
Problema óbvio é saber quais as satisfações igualadas na margem (marido, esposa, filhos, etc.).
A família moderna não permite a expressão da personalidade e das preferências individuais.
A economia neoclássica resolve o problema se furtando a subordinação do indivíduo dentro da família, cujas relações íntimas ignora. O economista recria a família como consumidor individual e não invade a sua intimidade.
A família moderna faz divisão de trabalho e normalmente, quem recebe a renda tem autoridade sobre sua destinação (o marido). A sociedade lhe dá o direito de ser chamado o cabeça da família.
Mas é a mulher, no seu papel de administradoras, que possibilita o aumento indefinido do consumo.
A teoria geral do desenvolvimento avançado
No modelo neoclássico, o oligopólio (mercado com poucas empresas) é a única concessão à existência da grande firma. O oligopolista pode fixar preços, controlar a produção.
O instrumento crítico da transformação ao é o Estado nem o indivíduo, mas a companheira moderna. Pontos de partida para o entendimento são a tecnologia e a organização.
-Tecnologia: influi nos produtos/serviços e também nos processos pelos quais eles são feitos ou prestados.
-Organização: o emprego da tecnologia requer os conhecimentos partilhados de vários ou numerosos especialistas, que precisam ser organizados. Além disso, para dar eficácia à tecnologia é preciso: capital, instalações, maquinários, etc.
Os preços, se possível, devem estar sob controle, em como certos custos decisivos.
A empresa moderna (e grande) não se incumbe apenas de planejar as próprias operações, mas também, o comportamento das pessoas e do Estado.
Para cada nível e cada emprego da tecnologia existe um tamanho Idea da forma.
Quanto maior, mais ela (firma) se torna independente do meio externo.
Na firma grande e altamente organizada, a autoridade não é estritamente do dono d capital pois ela passa para a própria organização (tecnocracia). O poder da estrutura técnica, enquanto a firma estiver ganhando dinheiro, é completo.
O crescimento é a força fundamental que altera a sociedade econômica.
Existem quatro fatores que excluem a organização, formando necessárias a atuação ou direção individuais:
1)Quando a tarefa, não padronizada, está geograficamente espalhada.
2)Persistência da procura de serviços explicitamente pessoais (a tecnologia é imitada ou excedida).
3)Ligação com a arte (cientistas e engenheiros prestam-se bem à organização; cm artistas, freqüentemente, como sucede no caso de serviços pessoais, a firma será o próprio indivíduo).
4)a firma continua pequena devido a restituições legais, ética profissionais ou de sindicatos.
Vigorosa expansão em certos setores econômicos, combinada com restrições eficazes em outros setores, provocam desenvolvimento econômico assimétrico.
Comparações: GM + Exxon superam Califórnia e Nova Iorque, GM + Exxon + FORD + G. Eletric superam todas as empresas agrícolas + floretais + pesqueiras.
Todos os setores econômicos estão concentrados.
Trezentos e trinta e três empresas industriais com ativos sujeitos à meio bilhão de dólares reuniam 70% de todos os ativos empregados na indústria (1971, EUA).
Resto da economia = 12 milhões de firmas menores sendo 3 milhões de agricultores.
Não existe um nível de ativos (que todos concordem) que possa separar estas enormes companhias, das milhões de pequenas empresas.
Vamos chamá-los de:
-Sistema de mercado - pequenas empresas
-Sistema de planejamento - enormes empresas
O sistema de planejamento não se adapta ao modelo neoclássico, contrariamente ao sistema de mercado (com a sua mistura de monopólio e competição).
A firma do sistema de mercado, competitiva ou monopolística, maximiza o seu lucro.
No sistema de mercado, não é provável que a produção e os preços se encontrem eficaz e seguramente sob o controle da firma. O empresário não poderá se dar ao luxo, por muito tempo, de se preocupar com qualquer outra meta que não seja ganhar dinheiro.
No sistema de mercado sobrevive a tendência igualitária do sistema neoclássico, dependerá de fontes externas de capital e poderá fazer muito pouco para influir no comportamento dos fregueses e do Estado.
A inovação no sistema de mercado é muito limitada e nenhum desenvolvimento tecnológico importante nos últimos tempos - energia atômica, eletrônica, computadores, ETC - foi produto do invento individual no sistema de mercado. “Os indivíduos ainda têm idéias, mas só as organizações podem pô-las em prática”.
A firma do sistema de mercado, mesmo sujeita às disciplinas e coerções do mercado, não as aceita de bom grado. Elas exercem certo controle de preço e da produção, na região em que atuam.
O proprietário da pequena firma pode adquirir certa influência sobre os fregueses e também pode haver a diferenciação de produtos e serviços pela sua associação com a personalidade de certo vendedor.
O sindicato adquire poder sobre o preço comum de serviços e o apoio do governo às negociações coletivas reforçam seu controle.
Os agricultores persuadem o Estado a fixar preços por meio de compras feita pelo governo e, por meio das suas áreas ou cotas de mercado, a limitar a oferta.
A diferença entre os dois sistemas (de mercado e de planejamento) não está no desejo de fugir às coações do mercado e controlar o meio econômico. Reside, isto sim, nos instrumentos por cujo meio estes propósitos são logrados e no êxito obtido.
Os participantes do sistema de mercado precisam agir coletivamente ou com auxílio do governo (esforço ineficaz, mal sucedido e ineficiente).
Já a firma do sistema de planejamento, conquista sem esforço o controle de preços, dos seus custos, pelo simples fatos de que é grande.
O enforque esta última é via burocracia (executivo) enquanto as empresas do sistema de mercado atuam via legislativo (vastamente noticiados pelos jornalistas e economistas).
O sistema de planejamento procura exercer controle sobre o meio econômico e tem êxito.
O sistema de mercado tem o mesmo desejo, seu esforço é mais patente e seu êxito muito menor.
O sistema de mercado compra a preços amplamente sujeitos o sistema de planejamento. Outro efeito é a desigualdade do lucro (segurança e quantidade).