Acidente da Tam

Carta aos meus amigos

De: Luciano Medina Martins

 

18/06/2007

Dra. Soraya Charara (42), Diretora da Fundação Freitas de Siqueira e Gerente Nacional de Controladoria Estratégica da Édison Freitas de Siqueira Advogados Associados. Casada, mãe de 3 filhos, 20, 15, 7 anos, duas netas.

Dra. Fabiana Hetzel Amaral (32), Diretora Superintendente da Édison Freitas de Siqueira Advogados Associados. Casada, grávida de 4 meses. 

Dra. Nádia Bianchi Moysés (32), Gerente Adjunta da Superintendência da Édison Freitas de Siqueira Advogados Associados. Casada. 


SOBREVIVI. TRÊS COLEGAS MINHAS MORRERAM.


Comprei o ticket do vôo da TAM de Porto Alegre para São Paulo, iria junto com o grupo de colegas, Soraya Charara, Nádia Moysés e Fabiana Amaral. Nós estávamos organizando um evento na capital. Quis ficar mais no escritório de Porto Alegre e segui no próximo vôo. Quando chego ao Aeroporto Salgado Filho recebo a notícia da funcionária da agência de turismo. 

Minhas colegas, minhas queridas companheiras de labuta. Estavam no avião que explodiu. O marido da Fabiana, uma jovem que estava grávida de quatro meses, esperando o primeiro filho, o primeiro sonho, bravejou..."estes irresponsáveis mataram minha família!".

Só consegui sentar para escrever na manhã seguinte. Abaixo de lexotan para tentar firmar os dedos sobre o teclado. Meu Deus, o que houve? Era o Vôo no qual ia com minhas parceiras para São Paulo.

No nosso trabalho sempre registramos tudo, e sempre temos como rastrear onde aconteceu alguma falha. Somos profissionais e trabalhamos o tempo todo para melhorar nossos procedimentos. E esse pessoal da aviação? Afinal, qual o nível de responsabilidade deles? Onde houve a falha? Por que minhas colegas tiveram este destino trágico?

Fomos vítimas do apagão moral. Da total negligência com a vida. Com a integridade dos cidadãos. A maior invasão de privacidade que o Estado pode praticar. Invadir o seu corpo físico com a sua permanente conduta anti-ética, com sua falta de responsabilidade. 

Chamar de acidente o que aconteceu é ocultar a verdade. Foi uma tragédia. E as tragédias têm responsáveis. Têm causadores. 

Colidiram os aviões da Gol e da Embraer, morreram uma centena de pessoas. Controladores em greve.  Vôo cancelados. Pessoas dias dormindo no chão. Caos em aeroportos faraônicos cheios de mármore e corrupção, enquanto os equipamentos não funcionam e as pistas estão em más condições . Na Agência de Aviação, na Infraero e no Ministério responsável, nenhuma demissão sequer.

O que era para ser meu vôo, o vôo de minhas colegas, o vôo de uma centena de pessoas amadas, explode na conseqüência da corrupção. Este é o resultado da impunidade. 

Um avião não cai por acaso. Não cai por cair. O total descumprimento das funções das autoridades encarregadas e de seus superiores causaram a morte das minhas 3 colegas queridas e de 176 pessoas amadas. E agora? O que vai acontecer a estas autoridades? Como vão responder por mais uma interrupção abrupta da vida de pessoas no auge de seus potenciais produtivos e de sua colaboração com a sociedade? Se IMPUNIDADE vai ser a resposta dada pelo Estado então é mais do que hora de refletirmos, de resgatarmos a JUSTIÇA em nossa sociedade. 

Pessoas morrem em corredores de hospitais. Morrem em estradas mal sinalizadas e projetadas. Caem nos aviões. Morrem de fome, de ignorância, mas, principalmente morrem pelo total descumprimento das funções constitucionalmente atribuídas ao Estado que, em linhas gerais, deveria administrar a infra-estrutura da sociedade: educação, saúde, segurança, transporte. Qualquer um que já tenha visto uma campanha política já viu estes itens listados. 

E agora? 

Não podemos mais viver na sociedade dos IMPUNES. Será que vão nos prometer mais um relatório redigido por um gabinete de crise formado às pressas por gente que não entende nada de aviação e que põe a culpa nos pilotos? E os estudantes, nem eles mais pintam a cara! Será que não perderam algum ente querido? 

 



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