Opções Reais e a Teoria da Empresa
Autor: Nicolai J Foss
Tradução: Luiz Gustavo Lovato*


Mestre em Direito pela PUCRS e Professor de Pós-Graduação em Direito Empresarial da UNISUL

INTRODUÇÃO

Tornou-se uma convicção cada vez mais prevalente, que talvez começou com Rumelt (1984), que as teorias acerca de estratégias deveriam ser fundadas na Teoria da Empresa, e que as teorias econômicas da empresa relacionam-se sob este aspecto. De fato, na última década, teorias contratuais de organização econômica1 tiveram um impacto substancial no campo da gerência estratégica e são vistas agora entre “as mais influentes perspectivas teóricas em pesquisa estratégica” (Zajac, 1992:76)2. Como resultado, muitas questões sobre gerência estratégica são avaliadas como problemas de eficiência de gestão. Também parece ser uma conjectura razoável que tal impacto improvavelmente não diminuirá a sua importância futuramente.

De qualquer maneira, a influência da abordagem contratual não possui um respaldo unânime. Em trabalhos anteriores, eu argumentei que no atual cenário das teorias da organização econômica dois grupos de teorias constituem os conteúdos teóricos dominantes (Foss, 1993, 1997, a, c). Um é o que vem sendo chamado geralmente de “teoria contratual da organização econômica”, enquanto o outro é também geralmente chamado “a ótica das potencialidades da empresa”3. Em poucas palavras, as óticas que se formam mostram a empresa emergindo em função dos conflitos acerca dos incentivos à solvência que a organização do mercado não é capaz de absorver (de maneira igualmente eficiente); a ótica seguinte diz que a firma existe em função de ser a forma mais bem sucedida no mercado de coordenar e acumular conhecimentos de produção.

Ambas as abordagens da teoria da empresa têm sido apresentadas por vários proponentes, como fez Richard Rumelt (1984) no clássico artigo “a strategic theory of the firm”. Em seus termos, eu vou aqui utilizar o entendimento de existência, organização, limites e vantagens econômicas da empresa. De qualquer modo, será sempre argumentado que, na busca de uma teoria estratégica da empresa, nós confrontamos dois adversários imperfeitos. Para resumir, enquanto a economia de organização é de considerável relevância para o campo estratégico, e enquanto é caracterizada por (relativa) elegância e simplicidade explanatórias, é também utilizada para deturpar muitas questões estratégicas. Por outro lado, enquanto a perspectiva das potencialidades é mais real nos tradicionais interesses e campos de estratégia (porque este é em parte o lugar em que foi desenvolvido originariamente), é atualmente muito disperso e sem clareza explanatória para servir como uma teoria estratégica da empresa.

O argumento mais remoto é que este trabalho recente – como uma opção real – (Sanchez, 1993; Dixit e Pindyck, 1994) é uma promessa a nos ajudar no avanço da teoria estratégica da empresa.

Trazendo uma dimensão dinâmica das teorias da empresa existentes, que falta atualmente. Enquanto as abordagens contratuais não inquirem sobre questões como aprendizagem e inovação, existe, como muitos escritores têm apontado (v.g. Pointer, 1994), uma característica distinta dos potenciais argumentos. De maneira controversa, uma perspectiva de opções pode ajudar a remediar essas deficiências.

Trazendo nova luz sobre as questões de limites e capacidades sobre a existência da empresa. Incluindo assim uma perspectiva opcional sobre a teoria da empresa para alterar idéias tradicionais, como, por exemplo, limites eficientes: esses limites da empresa seriam os preferidos em uma transação estática sob a ótica de minimização de custos que talvez não seja a ideal em uma perspectiva de longo prazo onde a criação de opções se torna de vital importância.

Assim, o argumento deste artigo não atinge somente as questões práticas de uma parte da teoria. Um argumento relevante, ou, se preferir, elemento para pesquisas adicionais, é que existe um potencial para cruzar dados sobre teorizações em questões práticas e meras teorias sobre a empresa, sobre as possibilidades e capacidades contratuais. Devido a limitações de espaço, muitos dos pontos acima serão, infelizmente, repassados de maneira telegráfica, mas espera-se que as referências possam ajudar nos casos onde o raciocínio esteja compactado.

II. Teorias modernas da empresa: coordenando incentivos vs. Coordenando conhecimento

A. A visão contratual da empresa: coordenando incentivos, direitos de propriedade e compromissos

As características básicas da moderna teoria contratual são bem conhecidas: como a história é normalmente contada, a teoria da empresa traça a sua existência desde o marco de Coase, de 1937, chamado “A Natureza da Empresa”. Coase indicou que, no mundo da teoria neoclássica do preço, empresas não têm razão de existir. A razão pela qual as empresas existem, portanto, pensou Coase, é que existe um “custo para a utilização do mecanismo do preço” (Coase, 1937:390). Assim nasceu a idéia dos custos de transação: custos que existem separados e adicionados aos custos de produção4. Bem mais tarde, Coase (1976:63) notou que seu trabalho de 1937 era “muito citado, mas pouco utilizado”. De qualquer maneira, é irônico que, precisamente na época das lamentações de Coase, surgiram trabalhos consagrados sobre organização econômica que se embasavam nas fundações que ele havia começado (v.g. Williamson, 1971; Alchian e Demsetz, 1972). E, apenas alguns anos depois, o campo da Teoria da Empresa simplesmente explodiu. Todos esses trabalhos seguiram Coase na conceituação da empresa como uma entidade contratual cuja existência, limites e organização interna poderiam ser estudados nos termos da economia dos custos de transações.

O marco atual da matéria, Oliver Williamson, focou naquilo que talvez tenha se tornado o conceito central da organização econômica contemporânea: especificidade dos recursos ativos. A lógica é basicamente simples. Ativos possuem valor específico quando são relacionados com o contexto de uma transação particular, mas possuem valores relativamente pequenos fora desta transação. Isso abre as portas ao oportunismo. Uma vez que o contrato é assinado e os recursos desdobrados, uma das partes pode ameaçar retirar-se do esquema – e através disso reduzir o valor dos ativos específicos – exceto se uma divisão maior dos elementos comuns da produção ache seu próprio caminho através dos bolsos dos concorrentes. O medo de tais “encarecimentos” ex post afetará as opções de investimento ex ante. Na ausência de proteções contratuais apropriadas, as partes podem escolher a tecnologia menos específica – e assim a menos especializada e menos produtiva. Se, em contraste, as partes combinassem os ativos de capital em uma única empresa, cujos lucros fossem compartilhados conjuntamente, os incentivos para os gastos com elementos não-produtivos seriam atenuados.

A explicação para a especificidade dos ativos é, na base, a argumentação sobre o alinhamento dos incentivos, mesmo se oriundos de informações imperfeitas: em um mundo de certezas e habilidades cognitivas irrestritas (se alguém conseguir imaginar este lugar), seria fácil escrever e reforçar contratos de longo prazo que evitem ex ante comportamentos de busca de meios não produtivos, ex post evidenciando a internalização. De fato, seja quais forem as suas diferenças, a central heurística que caracteriza todas as teorias contratuais da empresa (ver nota de rodapé 1) é uma ênfase em conceituar literalmente todos os problemas da organização econômica como problemas do alinhamento incentivos/eficiência de gestão.

Não se pode negar que, sob muitos aspectos, essa pesquisa estratégica provou que é extremamente proveitosa, lançando novas idéias sobre o tema. Mas, sob a ótica adotada aqui, também poderia ser reconhecido que representa um fenômeno importante e possibilita a compreensão de outros fenômenos. O problema certamente não é que as reformulações da forma tradicional de coordenação e estratégia de recursos em termos de otimização e incentivos são inteiramente inconsistentes. Preferivelmente, o fato consiste em os mecanismos serem identificados como explicações plausíveis do fenômeno em estudo, para traduzir essas suposições em uma pesquisa estratégica exclusiva e quase-universal sobre o que a empresa é e o que os diretores estratégicos fazem. Genericamente, pode-se apontar para um número de pontos-cegos na teoria contratual da empresa5, que são causados pela pesquisa estritamente heurística:

Não existe reconhecimento de que o conhecimento sobre como produzir seja imperfeito (ou, se preferir, disperso, limitado, rígido e idiossincrático), o que significa que as diferentes formas de capacidade não são tratadas (Foss, 1993).

Relativamente, não é reconhecido que o conhecimento sobre como atuar conjugando os conhecimentos de produção de uma pessoa (ou empresa) com o de outra também é imperfeito (Richardson, 1972; Langlois e Robertson, 1995).

Inovação (exceto a organizacional) e aprendizado organizacional são suprimidos, pois a visão contratual não presta atenção neste processo (e produtos per si, somente a respeito de como esses são organizados) (Foss,1993).

Vantagens competitivas somente podem ser compreendidas em termos de custos econômicos de transação; não em termos de acumulação de recursos raros, locação de recursos, e flexibilidade e capacidade de resposta para mudar as circunstâncias do mercado (Teece, Pisano e Shuen, 1997).

Os aspectos benéficos podem ser formalmente reconhecidos através das estipulações pelas quais a organização econômica eficiente maximiza a conjunção de excedentes; mas, na prática, toda a atenção está concentrada nos custos de transação, negligenciando os benefícios da transação e perdendo, como efeito, o fator Chandlerian (Chandler, 1990) de aumento dos custos de transação na mesma proporção em que diminui os custos de produção.

B. A ótica das capacidades: coordenando conhecimentos

A ótica da empresa apresentada nas teorias contratuais tem sido recentemente contestada por suas capacidades; um corpo de teorias que está mais consciente do caráter e das limitações do conhecimento do que a economia da organização principal. A conceituação da empresa que embasa este trabalho foi, talvez, melhor expressa no último trabalho de Edith Penrose The Theory of the Growth of the Firm (1959), na qual a autora apresenta as diferenciações das diversas óticas sobre funções de produção prevalentes. “A empresa”, diz Penrose, “é... uma coleção de recursos de produção à disposição de diferentes usos e, ao longo do tempo, determinada pela decisão da gerência” (Penrose, 1959:24). Embora isso seja freqüentemente esquecido, a sua teoria é uma das que reforça a iniciativa empresarial. Para Penrose, a equipe de gerência possui imagens do ambiente externo e dos recursos internos da empresa (esta é a parte subjetiva da análise). Ela argumenta ainda que estas imagens são produzidas através de processos internos da aprendizagem, e que determinam a constante mudança dos “quadros de oportunidades de produção” da empresa, isto é, as capacidades de produção que os empresários vêem e conseguem tirar vantagens (Penrose, 1959:31). “A longo prazo”, Penrose explica,

...a rentabilidade, a sobrevivência e o crescimento de uma empresa não dependem tão somente da eficiência com que ela seja capaz de organizar a produção de uma ampla gama de produtos diversificados, mas de como se apóia na habilidade da empresa em estabelecer uma ou mais “bases” concretas a partir das quais se pode alargar e ampliar as operações em um mundo incerto, mutante e competitivo (1959:137).

Assim, paradoxalmente, flexibilidade é mais uma idéia de análise de especialização. O paradoxo desaparece quando se percebe que a especialização ocorre em termos de suporte de recursos-base (ao invés de produtos) e que mesmo a especialização deve ser consistente nas reações a novas oportunidades de negócios.

Considerando explicitamente a cognição inicial de Penrose, contribuições modernas das perspectivas de capacidades simplesmente começam com uma generalização empírica de que o conhecimento de produção não é explícito ou livremente transferível. De qualquer maneira ele é reduzido ao mesmo reconhecimento do senso comum, a saber, que as pessoas – e as organizações – são necessariamente limitadas ao que elas sabem fazer bem. Na verdade, o principal interesse da ótica das capacidades é entender o que distingue as empresas como organizações históricas e unitárias de co-operações individuais e como isso pode ajudar a explicar as vantagens competitivas e a organização econômica. Tipicamente, o interesse é aqui centrado na característica tácita e distributiva dos diversos conhecimentos de produção. Na verdade, capacidades são precisamente caracterizadas por estes fatores: elas devem ser vistas como um time, um conjunto tácito da produção e organização do conhecimento que pode ser operado pelos membros da equipe para efetivar propostas estratégicas. Ademais, essas qualidades podem valorar capacidades difíceis de copiar, e assim sustentar vantagens competitivas (Barney, 1991).

Em um mundo de distribuições tácitas de conhecimento, empresas não confrontam os mesmos custos de produção com as mesmas tarefas produtivas. Ademais, neste mundo, atividades econômicas podem ser afetadas pelo que Richard Langlois chamou “custos dinâmicos de transação”, que são os custos que surgem em tempo real com o processo de aquisição e coordenação dos conhecimentos de produção (Langlois, 1992; Langlois e Robertson, 1995) e que são diferentes em sua natureza dos custos de transação causados por problemas de alinhamento de incentivos. Isso, por seu turno, sugere que a perspectiva das capacidades pode ser interpretada como uma teoria alternativa das organizações econômicas.

Um possível ponto de partida deste argumento é que a empresa pode controlar os conhecimentos de produção, o que é, em dimensões consideráveis, fortemente diferente (ou não similar) de outras espécies de controle. E uma implicação possível é que membros de uma empresa podem literalmente não entender o que outras empresas querem deles (em contratos de suprimentos, por exemplo) ou lhes é oferecido (em contratos de licença, por exemplo). Devido às especificidades e sutilezas de muitos dos conhecimentos de produção, uma empresa pode ter dificuldades em entender as capacidades da outra; e ambas as empresas, separada e conjuntamente, sabem mais do que podem em seus contratos. Nesse sentido, os custos para fazer contatos com parceiros em potencial, de educação sobre licenças e franquias (franchisees) potenciais, de prestadores de serviços de ensino sobre suas necessidades, etc., tornam-se fatores realmente determinantes em que estão colocados os limites da empresa. Assim, problemas de coordenação podem surgir por causa das “fricções”: conhecimento, molduras cognitivas, e competências incorporadas nas estruturas de gestão (sejam suas empresas, mercados ou algo entre estes) talvez sejam muito inflexíveis, especialmente frente a mudanças “Schumpeterianas”, para aproveitar as oportunidades tecnológicas e de mercado (Chandler, 1992). Sob tais circunstâncias, outras estruturas gerenciais que possam aumentar as capacidades necessariamente irão surgir e prosperar.

O resultado desta seção é que a perspectiva das capacidades é, de fato, uma perspectiva emergente e distinta na organização econômica, que surge para ser particularmente apta a explicar os limites da empresa em ambientes dinâmicos. É caracterizada por destacar mecanismos explicativos que são diferentes daqueles da moderna economia de organização; não menos importante para atender à reestruturação do conhecimento determinante, não só em vantagem competitiva, mas também da organização econômica. De qualquer maneira, em muitos aspectos a perspectiva das capacidades sofre de algumas fraquezas:

Como muitos autores apontaram (incluindo Porter, 1994), há distintamente um caráter retrospectivo na perspectiva; em outras palavras, não é (suficientemente) previsível, e a sua aplicabilidade às decisões práticas é algo indubitável.

Relativamente, algo que ainda não foi muito comentado sobre a acumulação de novos recursos, valorosos e difíceis de copiar, é a ênfase que claramente recai sobre a valoração dos recursos já existentes (v.g., Barney, 1991).

Como muito tratado por Foss (1996b&c, 1997c), ainda existem sérios problemas com a perspectiva em sua manifestação como uma teoria da organização. Por exemplo, ela não explica convincentemente a existência da empresa, e não tem nada a dizer sobre os ativos.

C. Conclusão

Os argumentes até agora podem ser resumidos assim: na busca de uma teoria estratégica da empresa, estamos confrontando dois conteúdos imperfeitos que são caracterizados por explicar organizações econômicas de diferentes maneiras. Eu discuti essas imperfeições e expliquei porque ambas, em seu atual estado de desenvolvimento, são diferentes para servir de base para uma teoria estratégica da empresa. Para resumir, enquanto a economia da organização possui considerável relevância para o campo estratégico, também é suscetível de esconder muitos problemas por causa de sua natureza estática e de seu descaso pelo conhecimento. Por outro lado, enquanto a perspectiva das capacidades fica próxima dos interesses e conceitos tradicionais do campo estratégico (porque é neste que foi parcialmente desenvolvida), é explicativamente pouco clara e possui muito do caráter retrospectivo para servir de uma teoria estratégica da empresa. O conteúdo que será brevemente elaborado na próxima seção trata da perspectiva das opções reais (real options) como potencial para ajudar a remediar esses defeitos. Em relação à perspectiva contratual, uma perspectiva de opções faz-nos perguntar sobre a organização econômica que leva às opções de inovação, riscos corporativos e aprendizagem organizacional. E a respeito da perspectiva das capacidades, uma perspectiva de opções tem potencial para acabar com a orientação excessivamente retrospectiva, precisamente porque a perspectiva das opções direciona a nossa atenção para as possibilidades futuras de ação6.

III. Organizando opções reais

A. As opções objetivam-se na estratégia

Originalmente desenvolvido no contexto da teoria financeira (Myers, 1977) e na aplicação de capital segundo o orçamento e de ativos relacionados à alocação de recursos para as propostas de produção e atuação no mercado, a perspectiva das opções reais está causando um impacto no campo da estratégia (Sanchez, 1993; Cowman e Hurry, 1993). O motivo é óbvio: assim como as mudanças tecnológicas, preferências, regulamentações, etc., parece haver-lhe certa substancialidade, por isso é chamada flexibilidade crescente em mercados emergentes. Empresas desenvolvem instintivamente essas “capacidades dinâmicas” (Teece, Pisano e Shuhen, 1997), o que irá ajudar-lhes nessas flexibilidades.

De qualquer maneira, flexibilidade tem sido notoriamente difícil de ser conceituada: o quê, precisamente, deveria ser flexível; em que extensão deve-se obter tal flexibilidade; etc. Como Ron Sanchez demonstrou (1993), uma atração inicial à perspectiva das opções reais é precisamente que ela fornece uma metodologia formal para perder noções de flexibilidade no campo estratégico da empresa. Uma evidência da perspectiva das opções, por exemplo, é que uma melhor e mais otimizada flexibilidade não é uma máxima flexibilidade, pois os custos para adquirir a flexibilidade “máxima” são ilimitados. A melhor e mais otimizada flexibilidade corresponde ao plano de ação que desautoriza a empresa a adquirir uma gama de opções que maximize a rede dos valores atuais da empresa. Isso tem relevância estratégica direta, se a estratégia for vista sob a ótica das lentes das opções (Bowman e Hurry, 1993) como um processo organizacional de escolhas e opções de investimentos de recursos.

Dessa forma, numa discussão útil, Sanchez (1993) aponta que, para estender aquilo que desejamos conceituar como flexibilidade estratégica sob as lentes das opções reais, devemos pensar em empresas como sendo flexíveis em termos, por exemplo, de quais produtos deverão ser produzidos, quando serão produzidos (e desenvolvidos no mercado) tais produtos, e como a produção (e venda, desenvolvimento e marketing) deverá ser organizada. Isso porque a opção é um direito de escolher entre agir agora ou no futuro; o que significa que podemos nos referir a esses três estágios de escolha: de opções de produto, de momento certo (timing) para as opções, e de implementação das opções. Isso tem ligação direta com alguns aspectos que precedem a discussão. Por exemplo, o que Penrose (1959) chama de “quadro de oportunidades de produção” da empresa – o que abrange todas as oportunidades que a gerência da empresa consegue visualizar e tomar como vantagem (mas que não deve fazê-lo) – claramente constitui um quadro de opções reais de produção. A princípio, essas opções reais podem ser valoradas utilizando-se das mesmas ferramentas que têm desenvolvido o contexto das opções financeiras.

A discussão aqui é que a perspectiva das opções não apenas tem implicações para a estratégia da empresa, mas também para a teoria da organização econômica. Por exemplo, uma visão sob a ótica da organização econômica pode nos ajudar a reconhecer os aspectos benéficos da empresa, híbridos e de mercado, como algo que, às vezes, pode ser negligenciado em algumas partes da abordagem contratual da empresa, por ter ligação próxima com os custos de transação.

B. Instituições como reservas

Um bom início para o desenvolvimento dessas implicações é pegar a idéia desenvolvida pelo economista Brian Loasby (1976 e 1994 a&b) e conceituar as instituições em geral como substitutas para as demandas de mercado. Mais especificamente, como reservas. A verdade no argumento de Loasby é que, quando não há um quadro completo de demandas de mercado – não apenas em função dos custos de transações próximos a estes, mas mais fundamentalmente porque eles não podem ser mercados de bens e serviços que ainda não foram sequer imaginados – há uma necessidade por instituições de provisões flexíveis, para reservas a curto prazo. “Ambos, empresas e mercado”, diz Loasby, “... são artifícios para a criação e a preservação das futuras transações possíveis; são ativos de capital intangíveis e complexos que se valorizam precisamente porque o futuro não é previsível o suficiente para justificar comprometimentos presentes” (1994:8). Por exemplo: a estrutura institucional de um mercado organizado é um conjunto de custos de investimento que implica no comprometimento das partes envolvidas para sustentar uma possível transação futura (Casson, 1982), e então providenciar uma gama de opções para comprar e vender. Mas, aponta Loasby, devemos ver a empresa exatamente nesses termos:

A empresa é uma reação a uma incerteza estrutural. Se não existem mercados adequados para certos contingentes de produtos é porque ninguém sabe especificar os grupos de contingentes adequadamente. Então, o remédio é criar gamas de opções para as reservas da empresa (1994:252-3).

Na visão das instituições como reservas, o que primeiramente parece distinguir empresas de mercados é que, considerando que mercados em expansão são instituições não planejadas que incorporam opções para contratos futuros, empresas em expansão são instituições projetadas que incorporam opções para contratos futuros, na mesma proporção.

C. Empresas e Instituições para Provimento de Opções

Uma possibilidade importante para o raciocínio de Loasby é que devemos conceituar empresas como estruturas gerenciais cujo raciocínio primário reside na provisão de opções. Talvez não seja surpresa achar o embrião de uma perspectiva das opções na empresa descrita por Penrose. “Uma empresa”, ela explica, “... é basicamente uma coleção de recursos. Conseqüentemente, se conseguirmos assumir que homens de negócio acreditam que existe mais a saber sobre recursos, e que eles estão trabalhando nisso a todo momento, e que mais conhecimento seria capaz de aumentar a eficiência e os lucros da sua empresa, seus serviços não conhecidos e não utilizados imediatamente assumiriam uma importância considerável, não apenas porque se acredita que eles existem como um incentivo para a aquisição de novo conhecimento, mas também porque trabalham a direção da busca por novos conhecimentos” (Penrose, 1959:77). Podemos também destilar idéias sobre as opções através da literatura das capacidades da empresa (que alguns colaboradores fizeram tão explicitamente), pois as capacidades podem ser interpretadas como a capacidade de agir de uma determinada maneira em circunstâncias específicas. Mas a idéia das opções reais é inerente à idéia das capacidades, que precisa ser revelada, por exemplo, no sentido da teoria da criação de novas capacidades através da criação de opções (ver Sanchez, 1993).

É certamente mais surpreendente achar idéias que trabalham a flexibilidade como a parte racional das empresas, e que apontam a perspectiva das opções no sentido da abordagem contratual da empresa de Ronald Coase (1937). Em uma discussão longa e incompleta sobre contratos, Coase aponta que

...devido à dificuldade de previsão, quanto maior o período do contrato para o fornecimento dos bens ou serviço, menor a possibilidade, e assim, menor é o desejo do comprador em especificar o que da outra parte contratada é esperado que faça. Talvez haja um pouco de indiferença ao fornecedor de bens ou serviço de que algumas atitudes devam ser tomadas, mas o mesmo não se aplica ao adquirente desses produtos ou serviços. Mas o adquirente não saberá qual dessas atitudes ele quererá que o fornecedor tome. Então, o serviço que está sendo fornecido é expresso em termos gerais, os detalhes exatos são deixados para depois. Quando a direção dos recursos [...] tornam-se dependentes do fornecedor neste sentido, o relacionamento que eu chamo de “empresa” pode ser concebido (Coase, 1937 – grifo nosso).

Isso está tão claro como uma associação entre a existência da empresa e a provisão de flexibilidade – o desejo de manter e/ou criar uma carteira de opções reais – que se pode esperar.

A lógica econômica não é dita explicitamente no artigo de Coase, mas pode-se percebê-la em diversas passagens. Por exemplo: empresas devem preferir estruturas gerenciais voltadas apropriadamente para a criação de opções reais em casos em que a opção em questão está na natureza do novo conhecimento tecnológico. Ou é possível apontar os ganhos coordenados7 que a empresa poderá obter no mercado nos casos em que o processo de criação de opções requeira a coordenação de processos organizacionais de aprendizagem (Conner e Prahalad, 1996). Isso porque as empresas são equipadas com contratos incompletos8, e elas devem, sob certas circunstâncias, ter a estrutura adequada em torno do processo de criação de novas opções e sua realização, em face da infra-estrutura existente de apoio de culturas corporativistas e de gestões heurísitcas. Segundo Loasby (1994), elas podem ser consideradas o “provimento de contratos para opções futuras”.

Em geral, empresas não podem existir sob uma disciplina competitiva a menos que obtenham retorno por seus projetos que devem ser, no mínimo, tão grandes quantos os valores de mercado de seus ativos para compensar os custos inevitáveis (Williamson, 1985; Grossman e Hart, 1986) de organização hierárquica (Robins, 1992) – excessos que são normalmente relacionados à presença de diversas dificuldades de trabalho, especialização, recursos organizacionais, como espírito de equipe, cultura e afins (Alchian e Demsetz, 1972; Langlois e Robertson, 1995; Conner e Prahalad, 1996). A sugestão é que a habilidade para gerar opções que não possam ser normalmente geradas (de forma eficiente) pelo “mercado” – a qual, argumenta-se, pode ser idêntica às “capacidades dinâmicas” de Teece, Pisano e Shuen (1997) – é o “X da questão” (Robins, 1992) que ajuda e favorece a explicação da existência da empresa.

Enquanto este raciocínio não é, a princípio, contrário à teoria contratual da empresa9, há uma mudança considerável na ênfase. Ao invés de conceituar a empresa como uma instituição que existe em função das dificuldades e oportunidades, é melhor considerar sua existência em função da promoção de algo, denominado produção de novas opções. Em uma perspectiva que considere opções reais/flexibilidade, e organização de otimização econômica/limitações eficientes da empresa, maximiza-se os valores das opções da empresa. É consideravelmente ampla (mas pode ser incorporada) a idéia de que a otimização da organização econômica minimiza os custos de transação (Williamson, 1985) ou minimiza os custos de aquisição e utilização de conhecimento (Casson, 1997).

Sob uma perspectiva das opções, empresas podem parar de ser a estrutura apropriada para as opções organizacionais – como direcionar filiais, rigidez organizacional de todas as espécies, objetos de estrutura, e tudo o mais que possa reprimir o processo de criação e percepção das opções. Nesses casos, empresas podem se dissolver, ou, se continuarem a existir, existirão por causa de outras razões, mais básicas, como a habilidade superior para resolver conflitos de incentivos. Ademais, para alguns tipos de aprendizagens – como a aprendizagem do funcionamento de um sistema modular – os mercados podem ser superiores às empresas (veja a análise em Langlois e Robertson, 1995). Para tal sugestão, visualizar a organização econômica através das lentes das opções pode ser um exercício de comparação, pois mercados e estruturas híbridas, como joint-ventures, alianças e redes de trabalho (networks) podem funcionar como instituições opcionais de provimento. Joint-ventures, por exemplo, não significam apenas uma espécie de fusão comlementar, mas ativos diferentes (Richardson, 1972) ou eficientes estruturas gerenciais em situações específicas de ativos em comum (Williamson, 1996); elas também podem ser criadas como opções reais de expansão em resposta ao desenvolvimento futuro de mercado e tecnologia, em que o exercício das opções toma lugar pela iniciativa de risco (venture) (Kogut, 1988). Outras espécies de realizações interempresas podem atuar em ocasiões similares. Uma questão óbvia é qual o peso da perspectiva das opções quando lançada sobre os limites da empresa.

D. Os limites da empresa

Vamos nos referir novamente ao trabalho de Loasby; não apenas seu ponto sobre expansão (e desenvolvimento) de mercado como expressão de opções para contratos futuros, mas sobre o ponto no qual “empresas e mercado claramente se substituem; mas isso não é menos importante do que reconhecer que eles também se complementam” (Loasby, 1994a:8). Traduzindo para a termologia utilizada aqui, um mercado em expansão e desenvolvimento complementa a organização da empresa providenciando-lhe opções de espera e opções de abandono: ele permite às empresas deferirem a aquisição de materiais utilizados em processos de produção e fazerem seu contingente em face de uma necessidade futura real, permitindo-lhes se livrarem dos materiais inúteis (Sanchez, 1993:272). A capacidade de utilizar o mercado inteligentemente dessa maneira pode ser uma origem importante do sucesso na competitividade, como o trabalho de Casson (1997) indica, e como os casos da NIKE e da IKEA confirmam.

Da mesma forma, a participação em redes de trabalho (networks) e outras espécies de arranjos interempresas pode ampliar o número de opções disponíveis como, por exemplo, providenciando acessos melhores às capacidades das outras empresas (possibilitando à empresa estender suas capacidades tecnológicas e gerar mais opções de produtos) a fim de ingressar em mercados “magros”, e para “conjugar as capacidades dos participantes” em uma rede de trabalho (Loasby, 1994b:263). Em outras palavras, redes de trabalho podem gerar opções (tanto em oportunidade como em diversidade de produtos) que não são facilmente obtidas em mercados “normais”. “A conseqüência” dessas redes de trabalho, diz Loasby (ibidem), “é uma conjugação de recursos, constituindo uma maior variedade de reservas que pode ser acomodada sem necessariamente estar restrita a uma única empresa”.

O outro lado da moeda é que a internalização acarreta a perda da opção de espera para a aquisição de materiais de produção; ela exclui a empresa de um adiantamento contingente dos compromissos que façam cair sobre si própria o custo desses materiais. Sob tal perspectiva, empresas devem internalizar apenas alguns poucos elementos de produção que 1) são excepcionalmente difíceis de serem obtidos através do mercado ou de redes de trabalho (networks) e 2) são capazes de gerar maiores opções de valores para a empresa. Capacidades, particularmente das variedades de “capacidades dinâmicas”, deveriam ter precisamente tais características. Enquanto proponentes da perspectiva das capacidades têm enfatizado o ponto “1)”, eles raramente tratam do ponto “2)”, argumentalmente, de certa maneira, por causa da orientação retrospectiva daquela perspectiva. Claramente, uma perspectiva das opções lança uma luz de dinamismo sobre os limites da empresa, desde que não dependam somente dos problemas com custos de transação (Williamson, 1985) ou com coordenação de capacidades (Richardson, 1972; Langlois e Robertson, 1995).

Da perspectiva da empresa, a proporção eficiente entre mercado e hierarquia depende, não apenas em custos atuais de transação e capacidades, mas fundamentalmente de uma “visão de possibilidades futuras” (Loasby, 1994:253), incluindo uma visão de quais os produtos que a empresa deverá produzir no futuro, quais bens de produção serão necessários para produzir esses produtos e uma estimativa de quais mercados de bens espera-se que sejam bem-comportados e quais não (Sanchez, 1993:276). Os limites da empresa determinados por este ponto de vista podem (em ambientes não-estáticos) ser diferentes conforme cada período, minimizando os custos de transação que poderiam implicar. Por exemplo, empresas podem privar-se de terceirizar certas atividades, cujos custos convencionais de transação possam ser ditados, porque a empresa espera alcançar opções superiores de valores com essas atividades.

IV. CONCLUSÃO

Este artigo busca revisar as teorias da empresa existentes, predominantemente econômicas, para ressaltar, entre as propostas de teorias estratégicas de desenvolvimento, que tais teorias são carentes em vários aspectos, e para finalmente sugerir que uma perspectiva das opções reais tem potencial para promover as teorias da empresa existentes em muitas direções dinâmicas. Tem sido sugerido que a perspectiva das opções talvez supra a deficiente teoria da criação das capacidades. E tem-se argumentado que uma perspectiva consistente das opções é capaz de mudar algumas idéias centrais da perspectiva contratual; notavelmente idéias sobre a existência e os limites da empresa. Enquanto a noção de que, de uma perspectiva das opções, a organização econômica eficiente maximiza valores agregados, não é necessariamente inconsistente, tanto com a teoria das capacidades como da empresa, mas ajuda a estender essas perspectivas em uma direção mais dinâmica. Por exemplo, no contexto dos limites dos ativos da empresa, uma perspectiva das opções ajuda-nos a entender como eles não são determinados apenas pelos custos atuais de transação, mas também dependem criticamente das expectativas dos produtos, tecnologias e organização. Para destacar esses fatores dinâmicos, uma perspectiva das opções também ajuda a trazer as teorias da empresa existentes a um contato mais próximo com os campos da inovação tecnológica ou da aprendizagem organizacional, que tratam essencialmente de aspectos importantes do processo de criação das opções reais. Assim, uma perspectiva das opções serve para facilitar a construção de uma teoria estratégica da empresa.

REFERÊNCIAS

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Notas de Rodapé

1 Em “the modern economics of organization” ou “organizational economics”, eu tenho em mente um largo rol de teoiras, como custos econômicos de transação (Williamson, 1985), a abordagem contratual incompleta (Hart, 1995), a teoria do chefe/empregador (Holmström, 1982), e o nexo de abordagem contratual (Alchian e Demsetz, 1972).

2 Veja a discussão em Mahoney and Pandian (1992) e Seth and Thomas (1994).

3 Nesse caso, também, um rol de teorias está envolvido, incluindo “the evolutionary theory of the firm” (Nelson e Winter, 1982), “the competence perspective” (Foss, 1993), “the capabilities perspective” (Langois e Robertson, 1995), “the dynamic capabilities perspective” (Teece e Pisano 1994), e “the resource-based approach” (Wernerfelt 1984).

4 No seu artigo de 1937, ele lista várias fontes de “costs of using the price mechanism” que dão razão à instituição da empresa. Em parte, esses são os custos dos contratos escritos. O “custo mais óbvio da ‘organização’ da produção através do mecanismo do preço é descobrir quais preços são realmente relevantes” (Coase, 1939:390). Um segundo tipo de custo é o que resulta de executar um contrato separado para cada uma das múltiplas transações comerciais que são necessárias para coordenar algumas atividades complexas de produção. A organização da empresa pode ser capaz de evitar esses custos, e existe por esta razão. Os vários custos de organização interna ajudam a exemplificar, pelo que significam um padrão marginal de razoabilidade, onde os limites da empresa estão assentados.

5 Cegos que o são de acordo com os requisitos que uma teoria estratégica da empresa ampla (no sentido definido anteriormente) deveria encontrar.

6 Este argumento também pode ser encontrado em Sanchez (1993).

7 Empresas podem se apegar a custos de comunicação relativos ao mercado. Foss (1997c) elaborou este argumento.

8 Os quais permitem a produção de aprendizados novos e imprevistos (Loasby, 1976; Foss, 1996a; Conner e Prahalad, 1996).

9 Desde que o ponto X possa ser considerado no sentido como definiu Williamson (1985), e necessite da proteção especial que seu proprietário possa oferecer.

 

Comentários

3 por enquanto (insira o seu)

Excelente artigo!

Enviado por Isadora Albornoz Cutin em: Wednesday, July.29.2009 @ 16:41pm | #86209

Excelente artigo!

Enviado por Isadora Albornoz Cutin em: Wednesday, July.29.2009 @ 16:41pm | #86210

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Enviado por gttpdmj em: Sunday, March.07.2010 @ 18:02pm | #128775

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